terça-feira, 24 de maio de 2011

pé de culpa

Foi passando de mão em mão até chegar em mim.

Chegou traumatizado, quase intocável.
E eu que buscava a pureza de alguma coisa, algo absurdamente novo, assim como
uma pergunta sem resposta, cheirando a coisa fresca.
Não era. Tava carregado de tempos idos.
Me engolia como se eu fosse a cura, e eu... perdido dentro de um casulo, fui muleta de nós, contentando-nos com o óbvio, enquanto almejávamos asas. Elas não vieram.
“Asas custam caro”, pensávamos enquanto a letargia consumia nossos ossos, nosso ócio.
O casulo ficou pequeno.
Construímos um circulo.
Morremos de cansaço construindo paredes. “Asas custam caro...”
Morremos de cansaço dando os mesmos passos.
Morremos de cansaço em não fazer nada.
Morremos com o cheiro podre que vinha de dentro.
Morremos com o assédio da felicidade alheia.
E um dia...cansamos de morrer... e passamos a nos culpar.
E do gole da culpa que tomamos todos os dias, resta sempre essa gota que a gente cultiva pra crescer mais culpa.

quinta-feira, 10 de março de 2011

quando eu me como.

Fica tudo misturado, parece que enlouquece, mas talvez seja só mais uma pitada de mim que eu desconheço.
Nem tem receita, me degusto e as vezes cuspo, assim é.
Por vezes indigesto, engulo com pressa para nao saborear de fato, é apenas mais um pedaço que me devoro sem pretensão.
Vem esses pedaços de mim que eu nao gosto, mas devoro, pra me ver sim naquilo que eu escarro, pra me enriquecer com o vômito daquilo que também me contém.
sou só eu me experimentando, sem escrupulos, me desfragmentando com aquilo que a convenção chama de talher, eu chamo de coragem.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

manual da felicidade

Parto da premissa que, um dia, em algum lugar, a humanidade absorveu a ideia de felicidade.
Aí, fodeu.
A IDEIA nao vinha sozinha, trazia um manual.
Diga-se de passagem, um manual de facílimo acesso, televisionado, impresso, propagado de boca-a-boca, exposto desde o menor panfleto até o maior out door.
Não importa a midia, o conteúdo foi apreendido, e por milênios a crença tem mantido a humanidade ocupada nos procedimentos necessarios.
A primeira página do referenciado manual é destinado à micro parcela da humanidade que, por determinação dos criadores, inexplicavelmente já tem acoplados em si um parafusinho chamado "sorte" e por conta dele, as pessoas que integram esse grupo NÃO NECESSITAM DESTE MANUAL, uma vez que vieram ao mundo desprovidos de pobreza e correspondem ao padrão físico exigido-aceitável. (vide" padrão-físico-aceitável" no anexo II, pag. 15, no referido manual), ou vá até a banca mais proxima de tua casa e compre qualquer revista que tenha uma mulher gostosa na capa.
Porém, a maior parte da humanidade é desprovida de tal parafuso e portanto, torna-se o público alvo para o qual o manual foi destinado:
REGRAS GERAIS:

-1. SEJA FELIZ
1.1 - adquira o maior número de bens possíveis (ostente, e mostre ao mundo o teu poder);
1.2 - continue adquirindo ( compre um pedaço da lua, mostre aos extraterrestres que o universo é apenas mais uma possibilidade de investimento imobiliário);

1.3 - seja impecavelmente atraente-lindo-magro (caso tenha dúvidas neste item, disponibilizamos outras referências bibliograficas/iconográficas em  outros semi-manuais encontrados em midias impressas e/ou audio-visuais)

1.4 - encontre um(a) parceiro(a) ideal (é imprescindivel que você siga corretamente os passos anteriormente citados para nao ter dificuldades neste item)

1.5 - construa uma familia perfeita com filhos-advogados-médicos-sócios-da-NASA (para maior visualização deste item: vide propagandas de qualquer margarina ou refrigerante)
*nota importante: nao se esqueça, "caso você tenha errado em algum item, o teu filho é uma nova oportunidade de acerto, portanto muita atençao na hora de adestra-lo".

1.6 - seja humilde (faça doações! afinal você precisa continuar rico-feliz-sem-culpa)
*dica: doe 10% do teu salário à igreja, os pastores também tem direito a "um lugar ao sol", mas seja esperto: doe àquele que já é proprietário de grande parte do sistema solar, pois mesmo que você nao seja rico o suficidente para garantir o teu lugar no céu, ao menos poderá permutar uma vaga na Via Láctea em teu período de férias.

 1.7 - conecte-se a uma rede social (Calma! Não é necessário criar grandes laços amigáveis, afinal você ja adquiriu o video-game-Ipode-Iphone-Ifode de ultra-mega-blaster geração para te fazer companhia, a rede é apenas um veículo para que você possa compartilhar a tua  FELICIDADE e  assim propagar   a ideia deste manual.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

[só-lido comigo: solidão]

Parece um golpe, uma armadilha do destino, mas é só solidão.
E a solidão é só uma companhia que a gente teima em denegrir.
É o vazio cheio de si.
É a hora do choro sincero, do espelho exalando um único cheiro, da letargia brigando espaço com a inércia.
Que seja ela, a solidão, "infinita enquanto dure", visto que é ela, e somente ela, que pode me levar até mim.
Porque no OUTRO, eu encontro a consequencia e nao a essência.
Eu quero EU em mim, não mais naquele.
Não para que eu me baste, mas para que se besta for, que seja assim concluido pela total presença de mim e nunca pela ausência de ninguém.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Puta

- Quanto que é o programa?
- 150.
- Faz tudo?
- Com anal é 200.
- Beija na boca?
- Com beijo na boca é 1500.
- Ô loco! Por que a boca é bem mais caro que o cú?
- Porque eu estipulo meu preço de acordo com o esforço que eu tenho que fazer.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Espelho, espelho meu...

você poderia ter me amado, mas teu pedestal nao deixou.
Essa coisa coisa que você sobe em cima e te leva a enxergar as pessoas com uma lupa é apenas um escudo brincando de segurança.
Desça daí, permita-se ser fraca o bastante para ser suficientemente humana.
A força tá na lágrima,  na sangria do corte que precede a cicatriz.
Mas voce plagiou algum Deus, e como todo deus, errou...porque almejou ser mais do que meramente humano e acabou virando único...e por ser tão ímpar morreu sem nunca ter tido a chance de perdoar o teu espelho.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

quando o diabo ama.

Encarou o cabra com a alma sangrando, sua raiva afiava a peixeira, mas não precisaria de lamina, suas palavras metralharam tudo. Era o macho indo ter com aquele que roubara-lhe a fêmea, ou fora ela quem permitiu-se perder? Já não mais importava.
Já tinha vivido um pouco de tudo na vida, quiçá viera ter no mundo a função de cobaia, vai ver que foi deus que testara o corpo do pobre pra ver ate onde o cabra macho agüenta.
E ele agüentava. Era só carne, osso e desafio, era feito disso.
Sobreviveu, talvez por promessa de antepassados, que também não tiveram melhor sorte e  deixaram-no sozinho, com cheiro de morte, mas o danado vingou.
Mas lá foi ele, matou algumas vezes e morreu tantas outras, e sempre acordava acreditando que o sol que lhe dava sede era o mesmo que norteava o caminho.
E, num desses caminhos, vem aquele que ate então não conhecia, nem nunca tinha ouvido falar. Vem aquele que lhe deixa sem sono e é muito maior que o deserto. Por vezes vazio, mas de um vazio tão grande que o preenchia. O cabra não entendia nada. Era só aquela maldita sensação de felicidade que culminava depois em solidão, porque nunca se contentava. Era aquela incapacidade de soletrar o sentimento, de esvaziar de novo o coração e viver somente pra si. Não conseguira.
Num desses caminhos encontrou a praga que o levou ao desespero mais do que toda a fome ou desgraça que tenha lhe sucumbido a vida e, que se ate hoje tais desgraças lhe preservaram o pulso foi somente por uma questão de crença “cabra macho não se mata”, mas fora difícil agüentar ate aqui.
E um filme passara-lhe pela cabeça, só viu miséria e cactos e o pior deles era esse que lhe arranhava a alma. Esse que veio através do cabelo negro e corpo magro, da pele morena e um olhar que lhe desnudava. Esse desejo trazido por ela e que por causa dele, pela primeira vez, o cabra viu-se sozinho, mesmo tendo passado a vida toda só. Agora era solidão da falta. E o cabra chorou.
Chorou alto, gritou desesperadamente àquele que a levara embora, apontando-lhe o dedo na cara: “...e se um dia tu fizer ela chorar e nem se quer carregar a lagrima dela com cuidado pra modo de não deixar a maldita lagrima cair no chão e fazer nascer tristeza, eu juro que vou atrás de tu e lhe arranco a vida e ... trago a minha de volta...”

E saiu no galope o cabra macho, e ate hoje ele chora.